11/10/2009

você não cansa, às vezes?

Na esquina anterior uma qualquer confusão, um carro que fechou o cruzamento e outros tantos furiosos escapando pela faixa de ônibus, o motor se esgoelando na subida e o semáforo de pedestres que continuava vermelho e não ia se abrir nunca. Tornei a descer a rua, construindo em minha cabeça a solução para o nó do trânsito, e que aquele carro vermelho virasse um tanto assim a direção, ou que tomasse um espaço vazio adiante com um pouco de habilidade motora. Vamos, meu senhor, tenha alguma solidariedade porque para frente não se vai e certos enlaces não se desfazem com uma troca de cores no semáforo.

(Você não cansa, às vezes?)

Nunca quis fazer minha carta de habilitação para dirigir. Fabrício afligia-se com o trânsito de São Paulo e Michel fazia de seu jipe um tanque de guerra.

(Parece que me sinto responsável pelo mundo.)

Era-me suficiente ônibus, metrô, uma ou duas horas me deslocando e porque sentia que às vezes não faria a menor diferença. Tornei a olhar a rua enquanto o nó se desatando e fazendo trânsito lento aos que vinham atrás; eis aí como se cria um dos monstros da cidade. Nós em cruzamentos porque algum que não soube medir distâncias e espaços. Precisava ainda atravessar a rua e tomar aquela próxima à direita, mas os carros.

Nenhuma brecha, o semáforo. Meus pés beirando a sarjeta e o ônibus que passa rente, uma mancha laranja e alguém que gritou na distância. Parece que sempre alguém gritando na distância e ainda outra série de buzinas estridentes. Meus pés no asfalto da rua, direito esquerdo, adiante, um ônibus que buzina e breca em desespero, outros que alarmados diminuem a velocidade, brecam, pneus. Derrapagem forçada, mas a pista já estava seca e. Pode-se assim confiar tanto na mecânica dos carros alheios? Pastilhas de freio ou a aderência do pneu. Pode-se assim uma vez, pelo menos uma vez, fazer do mundo o responsável por mim, exigir do tempo alguma consideração. Era?

Alguém que grita na distância.

Está louca?

Adiante uns olhos aflitos, um rapaz que desajeitado deixou cair o guarda-chuvas e uma pasta de couro ou uma moça (um casal de namorados ou) que leva a mão a boca e encolhe um pouco os ombros. Uma última derrapada, e buzinas na distância da rua que sobe, súbito o tempo em suspensão e motores se esgoelando com um nó, outro nó, que se desfaz no trânsito de São Paulo.

Eles querem me atropelar menos do que eu gostaria de ser atropelado.

Parecia na época uma boa teoria, mas era também outro que de muito falar estava hoje casado em cidade do interior e dois ou três filhos, a vida vai bem obrigado. Atravessava ainda as ruas sem olhar para os lados, comprazia-se de freios aflitos e pneus que gritam?

Os amigos se perdem no tempo, na distância.

Pisei forte na calçada do outro lado da rua e senti acelerar meu coração num desespero até então inexistente. Rapaz (um casal de namorados, a moça) se aproximou, preocupado, quis saber se eu estava bem.

-- Menina, não faça isso.

Também vendedor em uma loja procurando na agitação uma quebra da monotonia, uma força inesperada que o tirasse da inércia. Apareceu na entrada mas não abriu a boca, esperando do outro rapaz (ou a moça, o casal de namorados) a pergunta que talvez quisesse fazer. E meu coração, ainda. Atordoado no peito. Olhei a rua, seguiam os carros, seguia o tempo, inconsequente. Cachorro desavisado que cruza a avenida no pior momento e. Que os céus vigiam os tolos, diriam. Mas, eu?

Busquei ar, tentei um sorriso ao casal de namorados, ao vendedor na entrada da loja de calçados. O rapaz que recuperou a pasta de couro e o guarda-chuva caídos no chão.

-- Você está bem?

E por que não estaria? O batimento cardíaco acelerado feito memorando que não se pode deixar de perceber. Do meu sorriso certo que me imaginaram louca (está louca?) ou. Cachorro perdido, cachorro de apartamento que atravessa a avenida quando se aproximam furiosos os carros de um semáforo verde.

-- Estou bem.

(Estou bem.)

Os céus vigiam os tolos ou há de se crer na teoria de meu amigo, aquele. Eles querem me atropelar menos do que.

Desfez-se o sorriso, segui caminho para então recarregar meu bilhete de ônibus e. Tocava meu telefone celular pela terceira ou quarta vez e era Fabrício, pela terceira ou quarta vez, que eu estava atrasada, que lhe escapava à inércia e. (Freadas de carro, buzina de um ônibus e ainda outro que atrás desconhecia o novo nó que se atava no trânsito, imaginando um cachorro perdido, um cachorro de apartamento que.)

Meus batimentos cardíacos, ainda.

Está louca?

Desliguei o telefone. Só os ecos, na imensidão da mente em branco, e tudo que podia era ouvir meu coração e os motores dos carros rua acima, contar meus passos e medir rachaduras no cimento da calçada. Ecos. Está louca?

(Estou bem.)

12/09/2009

uma oscilação natural

As pessoas temem os suicidas, temem reconhecer que eram pessoas comuns, que podiam ser pais, podiam ser irmãos, podiam ser filhos.
Meu pai.
As pessoas têm medo de se reconhecer nos suicidas. Deparar-se com o abismo e sentirem-se compelidas a pular.
Foi Michel quem me disse. Era um domingo. Estávamos numa livraria e ele tomava um café descafeinado, e disse qualquer coisa sobre meu pai tomar café frio, se entupia de café frio.
Michel sempre falava de meu pai, comigo. Era assunto em comum, era começo de conversa, fim de conversa. Preenchedor de vazios. Porque então falávamos da vida, das pessoas. Dos outros. Sempre falávamos dos outros. Ele puxou a mochila de trás da cadeira e procurou nela uma agenda, onde sempre rabiscava. Abriu uma página e leu:
-- Não tenho tanto medo de altura quando tenho de me sentir compelido a pular.
-- Você?
Ele sorriu, negando com a cabeça. Falava, sim, dos outros. Ou de meu pai. Fechou a agenda com um gesto quase furioso e inclinou o corpo muito pra frente. O café se agitou na mesa.
-- Quer fazer uma experiência?
Falei que sim. A palavra soava sempre ridícula quando era Michel que a pronunciava, porque eu trabalhava em laboratório e passava o dia com experiências. Mas ninguém no instituto as chamava assim. Era o tipo de palavra que cabia a Michel, em toda sua inadequação.
-- Já atravessou a pé a ponte Cidade Universitária?
-- Sim.
-- Parou no meio, para olhar o rio?
-- Não tem o que se olhar naquele rio.
-- Não?
-- Não vou sentir vontade de me jogar.
Ele deu de ombros, fez que concordava. E não me parecia sensato pensar que alguém poderia sentir algum impulso em se jogar no rio Pinheiros, fossem as circunstâncias. Seria a necessidade de algo mais que a morte, unir-se a um esgoto gigantesco e fazer do suicídio o palco para qualquer metáfora de um estado de degeneração da sociedade. Um exagero.
Mas eu nunca havia parado no meio da ponte para olhar o rio. E por anos durante a faculdade que preferia andar a pé, e cruzava a ponte para chegar na praça e.
Com João, também.
-- O que foi?
-- Eu estava pensando no João.
-- Que tem o menino?
-- De quando atravessávamos a ponte juntos.
-- Ele parou no meio para olhar o rio?
João era meu amigo. Michel fez crescer seu sorriso com a pergunta, ou porque 
via em meu rosto um vestígio do que eu estava pensando.
-- Ele sempre andava do lado de dentro, do lado dos carros. Seguia olhando adiante.
-- Sim?
Vitorioso.
João nunca se importou que eu falasse de meu pai. Mas ele, sempre, calado. Ouvia. Compreendia. Da minha necessidade de falar ou.
Tomei o que ainda sobrava na minha xícara de café. Estava frio.
Michel era um demônio loiro de um metro e setenta. Os cabelos quase todos brancos. Os olhos de um amarelo cinzento. Passava os sessenta anos e por vinte e cinco foi professor de história para a quinta série em escola pública. Sei que parou, por algum tempo, rodou o Brasil em projetos com o Ibama. Porque precisava sempre de qualquer coisa nova com o que se distrair, e a aposentadoria jamais lhe significaria a paz.
Foi o melhor amigo de meu pai. Minha mãe não gostava dele. Ele não quis desaparecer por qualquer insistência desmedida, mas o tempo faz curvas difíceis, e ele se afastou. Ou se enfiou no meio do mato alfabetizando índios.
E voltamos a nos encontrar. Eu tinha dezesseis ou dezessete anos. Ele resolveu se apaixonar pela mãe do João. Voltas. Conheciam-se, de outros tempos.
E eu me lembrava dele, tio Michel. Para mim ele continuava o mesmo, mexia muito os braços quando falava, e usava tênis allstar como se tivesse vinte anos.
-- Vem.
Levantou-se. Puxou-me pelo braço e saímos da livraria. Michel dirigia um jipe velho que devia ter minha idade. Enfiou-se no lado do motorista e nos olhos um brilho de criança. Disse que queria ir até a ponte. Eu tinha o domingo, e meu namorado em casa se metia em alguma tradução que duraria o dia inteiro.
Depois me receberia com uns olhos perdidos, de quem passou a tarde me procurando. Mas meu celular um silêncio.
-- Você não cansa, às vezes?
-- Cansar? De quê?
-- De deixar sempre as coisas acontecerem.
Michel sorriu. Deixou crescer o silêncio, feito eco do sorriso. Sacudiu a cabeça muito imperceptivelmente, e não sei se afirmando ou negando.
-- É a única coisa que sei fazer.
-- Meu pai se cansou?
A resposta um mexer dos ombros. Era sempre nossa sina, de jamais ver inteiro o presente, jamais saber o futuro e ser sempre incapaz de compreender o passado. O que eram sinais? Um exame de sangue ou de DNA. Antes meus ratinhos obesos. E a vida se fazia o instante eterno.
-- Devo ter qualquer neurose-- falei.
-- Todos temos.
-- Parece que me sinto responsável pelo mundo.
Ele ligou o toca-cds. Foi parar o carro em rua estreita do Alto de Pinheiros, e desceu numa pressa. Saímos a pé num lado da ponte, atravessamos a rua e seguimos para a passagem de pedestres. Domingo tranquilo de poucos carros. Parou quando atingimos o meio da ponte, e apoiou as mãos na mureta.
Parei ao seu lado. Vinha um vento desagradável.
-- Todos temos uma oscilação natural do corpo. Aqueles com medo de altura são aqueles que oscilam mais que todos. Li em algum lugar, esses dias. É um medo com fundamento científico. Um medo real. Porque é como se pudessem mesmo cair a qualquer momento.
-- Leu em algum lugar?
-- Não foi na internet. Você não acredita? Vem mais perto.
Obedeci. Apoiei também as mãos e olhei o rio. Uma vertigem. Como se suspensa no ar, incapaz de encontrar o chão. Mas eu não tinha medo de alturas. Tinha medo das substâncias na água escura. Moléculas. O que conhecia bem demais.
-- A altura é sempre o desconhecido.
-- O inconsciente sabe da oscilação natural do corpo. A queda deixa de ser o desconhecido. Vira a possibilidade real. Algo com que precisamos aprender a conviver.
E o sorriso torto de Michel, encarando aquele rio sujo. Depois riu. Virou-se pra mim e ficou calado por um instante. Olhava através. Tudo em volta o concreto. A segurança inabalável da engenharia. Quando foi falar, tinha já se virado e seguia de volta para o carro.
-- Também o medo de se sentir compelido a pular. Como se fosse uma oscilação natural da alma.

07/09/2009

do impossível

Parece-me então que a capacidade de se manter em um relacionamento está sempre muito relacionada à capacidade de deixar-se apagar, deixar-se diluir uma personalidade. É preciso acomodar-se ao outro, adaptar-se ao outro. Destroçar-se ao outro. Instituída uma democracia de dois, a necessidade de discutir-se decisões e objetivos e medir discordâncias. Encontrar uma razão, encontrar um meio termo. Tudo um impedimento.

Porque o outro -- os outros --, ele. Tudo o que Fabrício não poderia ser. Mais ainda: tudo o que Fabrício não era, em oposição. Por platonismo. Feito todo uma imagem, um espectro do possível. Meu personagem. Eterno. Um sorriso, uma voz, um gesto do braço, das mãos. Era meu, era eu.

E encontrava-me.

Jamais a culpa seria de Fabrício. Ele, também, uma personalidade desfeita. Oprimia-se, comprimia-se. Era infeliz? Mas a culpa era minha? Porque de repente detestava sua presença, e aquela necessidade de conversar, discutir qualquer autor latino e morto.

Casar é descobrir-se completamente, irremediavelmente sozinho.

Casar é deixar entrar o outro em sua vida, e sair dela. Deixar-se fugir da própria vida. Uma troca inevitável e irresponsável. Que vou fazer na vida de outro enquanto ele também não sabe bem o que fazer na minha?

Jamais.

Ainda da contradição um fascínio. Por não me deixar envolver, de já antes assistir a própria vida na distância, e então observar Fabrício com mãos inábeis incapaz de descobrir a melhor maneira de tratar aquele elemento estrangeiro a ele. Era triste, mas vinha por vezes uma angústia. Na certeza do impossível, por ver o Augusto do outro lado do saguão, inalcançável como deveria ser, sempre. Só o irrealizável contém em si alguma certeza, só o inexistente pode ter a mais plena das existências.

-- Que bonito.

Falei, no carro. Eram as cores da cidade. De um dia todo muito feio: chuva forte pela manhã e um cinza interminável até o fim da tarde. Ao leste, ainda: um cinza escuro, prenúncio de tempestade, ou. Tempestade que se vai, esvai-se. Vi depois quando voltávamos pela marginal Tietê, no oeste o por do sol por entre as nuvens pesadas fazendo abrir espaços que deixavam ver o céu. O branco histérico, azulado, e o reflexo estridente nos prédios. A luz que ultrapassa por um nada e cria feixe.

Grita aos olhos. Os olhos não estão preparados para a luz. Fixei um ponto neutro, que meus olhos pudessem suportar, abri uma panorâmica mental. Contemplei a cidade, cinza e brilhante, feita inteira uma contradição. Mirei Fabrício por um instante, enquanto ele dirigia. Pensava em outra coisa. Talvez não tivesse me ouvido. Abaixou o contra-luz, perturbado. Mudou a estação no rádio.

Sozinha.

04/09/2009

um happy hour

-- Meu pai se matou.

E o silêncio que segue, feito bolha que se enchia ao redor da mesa, as paredes tão firmes que fazia qualquer som bater e resvalar. E os olhares. Eu olhava distraída o copo de cerveja, e quando então ergui a cabeça e busquei. Os olhares, o olhar. Ele. Augusto. Mas quando nossos olhos se encontraram vi qualquer coisa que não era. Imóvel, impassível, que era seu jeito de apoiar as mãos nos joelhos e não se mexer na cadeira nunca, como se sempre demais bem encaixado ao mundo. Cabia, todo ele, no lugar no mundo que lhe era destinado, e não. Sei que; quanto tempo o silêncio, a bolha que nos isolava.

Suicídio? Só há um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Era preciso? Para mim, o que havia de certo, inevitável, incensurável.

João colocou uma mão em meu ombro. Porque já sabia. De minha indiferença, desse tornar familiar o que é o mais estranho, como se Freud às avessas. Pairava no ar a mudança de assunto e ninguém atrevia agarrar-se a ela, porque. Qualquer curiosidade mórbida.

Sorri, dei de ombros.

-- Eu tinha seis anos.

Era explicação. Senti o aperto em meu braço. João, que dizia, indulgente, ah, Marcelinha. Ou. Busquei os olhos de Augusto mas ali não havia o que eu poderia estar procurando, uma compreensão para além. Além da bolha de silêncio que nos envolvia. Ele encarava súbito o próprio copo de refrigerante, medindo um pensamento.

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Sim, era preciso falar sobre os suicidas, para compreender por que não se tornar um deles. Porque apavorava compreendê-lo como saída possível, e desfazer-se voluntariamente de uma existência. Desfazer-se.

E motivos, verdadeiros motivos? Dear world, I am leaving because I am bored.

Augusto mirou o relógio, leu as horas e demorou-se com os olhos nos ponteiros como se contando os segundos, o braço imóvel. Encontrou meus olhos e sorriu.

-- Que merda-- disse alguém, em frustração.

-- A gente nunca é o suficiente-- João me repetindo. Fitou-me, cúmplice.

-- Quantos anos ele tinha?

-- Trinta e cinco.

-- E você não tem medo?

-- Medo?

-- De fazer o mesmo.

Repetir os passos de meu pai. Medo? Mas se ele que foi por não estar, por demais sufocado na incapacidade de se afastar da própria vida. Sufocado em vida, pela vida. Sim. A vida e o peso do tempo presente sempre inapreensível, fugindo a todo instante e jogando o que se fazia passado sobre as costas de meu pai, um rastro pesado e incompreensível. E então. Mas eu?

Neguei com a cabeça.

-- A vida me passa longe-- falei.

Então Augusto ergueu a cabeça.

-- Perdi o pai, também. Eu era moço.

Havia naquela afirmação algo de torto. Algo de torto, tão correto era. Tão esperado, inevitável. Porque a ele talvez pouco importasse o suicídio, e aplaina-se a morte como a não-existência, tão pura. Um desaparecer-se. Passou-me uma leve irritação, e desviei os olhos para o copo de cerveja, quase cheio, ainda. João talvez tenha notado, senti em mim seu olhar. Vi que um ou outro estava numa afirmação sonsa de cabeça, ou.

Perde-se um pai como se perde um par de meias. E quis dizer, sei muito bem onde está meu pai.

Mentira.

Sei muito bem onde está, estaria. Estão. Meu pai, ou o que restou dele. Cinzas. Que Michel espalhou pela cidade, ou pelo estado, ou pelo país. Estava por toda parte. Meu pai estava. Estava?

Para sempre a imagem que Michel. Eterno pretérito mais-que-perfeito.

Constatei com ódio que ele tinha razão. Perdi meu pai.

Mas tudo tão conveniências. Convinha ainda mudar de assunto. Ele. E estava que aguardava de mim uma reação, uma identificação, pois não, pois sim, eis que, a vida. A morte. Um tradicional sinto muito, meus sentimentos etc. Era ele.

Quando o encarei ele sorria. Um sorriso compreensivo e odioso. Um sorriso previsível. Devolvi o sorriso, devolvi a compreensão. Perdi meu pai?

-- Deus sabe o que faz.

Continuou. A voz sempre tão grave e suave mas eu só ouvia as palavras.

-- Acredito muito nisso.

Deus não colocou nas mãos de meu pai a garrafa de vodca e toda uma cartela de benzodiazepina. O livre-arbítrio foi Deus tirando de si a responsabilidade e dizendo que te vira, não tenho nada com tua vida. Pois!

-- E o que o seu Deus diz do suicídio?

João se arrumou na cadeira, tomou outro gole da cerveja. Dissolveu-se o silêncio em conversas paralelas porque alguém lembrou de uma roupa de uma vitrine, ou que uma sobrinha aprendeu a andar. Augusto e aquele refrigerante. Na minha pergunta uma curiosidade real, mas incompleta. Eu sabia muito o que todos tinham a dizer, por antes buscar nas palavras alheias uma explicação que jamais poderia existir.

Provocação.

Ele tão sereno. As mãos imóveis. Segurou com uma delas o copo de vidro e olhei a aliança. Um reflexo da luz amarela do teto do bar. Tudo aquele silêncio, aquele desconforto. Também a mim. Deus! Perdi meu pai, ele disse. Era moço. A ninguém interessava a morte ou o suicídio, e talvez tanto nem a ele, ainda que sorrisse, irresoluto.

23/05/2009

todas as coisas que acontecem

E porque existem aqueles momentos que duram para além do esperado, e são como uma fruta que nunca amadurece, desafiando todas as leis do tempo e da física.

07/12/2008

ele

Ele.

Chamava-se Augusto. Descobri. De uma vez que se despedia do João, e então um "até mais, Guto". Guto; Augusto? Devia ser.

Foram duas semanas. Porque antes era sua voz muito serena que me colocava sorrisos quando aparecia no saguão do instituto naquele horário de fim de almoço. Era, isso. Sorrisos. Até que dei de reparar naquele homem, porque uma vez era dele o sorriso, e ele sorria com os olhos.

E senti mexer o chão, fugindo-me.

O tipo alto, robusto. Eram os cabelos curtos, um pouco ondulados. Mal penteados. Os olhos. De longe, pensei: os olhos escuros, quase pretos. Mas não. Ele tinha uns olhos de um castanho alaranjado, e por qualquer motivo lembrei-me dos olhos amarelos e terríveis de Michel.

Ele, não.

Os olhos sorriam.

Observava seus braços, quando puxava as mangas da camisa com o calor no saguão do instituto, saído súbito da sala climatizada onde a temperatura nunca passava os 20ºC. Ele sempre sereno, quase imóvel em seus movimentos. Tinha em alguns dias os olhos sonolentos, e as mãos esfregavam o rosto, devagar. Como se jamais qualquer movimento necessitasse pressa, como se estivesse sempre adiantado para o que fosse, nunca prazos, nunca lugar melhor para estar.

Pensei, ainda, que se vestia mal. Desleixado. Qualquer camiseta do topo da pilha da gaveta, e uma camisa de botão por cima. Vezes ainda que por através do tecido da camisa clara se via a imagem na camiseta que estava por baixo. Sempre a calça jeans preta, o mesmo sapato.

Mas pensava tudo isso que era para poder pensar em outra coisa. E não sua voz grave e medida, que me alcançava do outro lado do saguão, sempre no mesmo horário, sempre às terças-feiras.

Mas seus braços, suas mãos. O sorriso bem educado. E vezes que falava no telefone celular enquanto esperava. Eu o observava, ocupando-me com papéis ao lado da sala da administração. Ele, sorrindo.

Sorria, para todos. Para mim, também, nesse incluir-se. E era meu.

E fazia-o personagem, que é o que se deve fazer com esses, que assim inatingíveis. Ele, o anel no anular da mão esquerda, feito impossibilidade.

Inventava-o.

E será que Fabrício notava, quando eu chegava ao final da terça-feira, e ele parava o que estava digitando porque havia passado o dia trabalhando e tinha fome, e sem hesitar eu o correspondia, como talvez esperasse de mim todos os dias. Mas era ainda ele -- o Augusto -- e meu passar minutos da parca convivência silenciosa a lhe observar as mãos, quase sempre imóveis no seu falar sereno, enquanto balançava a cabeça para o 'sim' e o 'não', entre sorrisos. Era a ele que minha mente viajava, no meu desconhecimento, ele feito personagem, ele meu.

Fantasiava, inconseqüente.

Não. Fabrício, não. Jamais imaginaria minha traição em pensamento, fosse o que fosse, o símbolo, o anel.

Fabrício não acreditava em alianças. Ou porque usou uma, por tempo demais. Dezesseis anos.

Fabrício não acreditava em alianças e a cada dia parecia mais calado, fazendo-se espelho de meu silêncio. Resignado.

-- O Thiago parece que foi promovido.
-- Thiago?
-- O rapaz, do instituto. Das terças-feiras. Das balas.
-- Ah, sim. Que bom, pra ele.
-- Tem outro, agora. O nome é Guto.
-- Guto?
-- Deve ser Augusto, não é? Guto é apelido de outra coisa?
-- Acho que não.
-- Parece muito simpático.

Fabrício me sorriu. Voltou-se para o computador e apertou a tecla de espaço algumas vezes. Que aquilo fosse fazer o texto escrever-se por si mesmo. Fabrício era tradutor. Francês, italiano. Fingia que entendia espanhol e arriscava um inglês ridículo. Também sabia latim. Mas isso apenas as citações que me jogava, durante o jantar, oferecendo-me um sorriso como se por trás da letra estrangeira e morta se escondesse um mundo de possíveis.

-- Ele é bonito demais, me perturba.
-- Quem?
-- O tal do Guto.
-- Mais bonito que eu?
-- Ele tem uma voz bonita.
-- Quantos anos ele tem?
-- Por quê?

Ele deu de ombros. Digitou mais alguma coisa e fechou a tampa do laptop, girando a cadeira e me olhando.

-- Mais novo que eu?
-- Fabrício.
-- O quê?
-- Quantos anos você tem?
-- Você esqueceu?
-- Responde a pergunta.
-- Você sabe quantos anos eu tenho.
-- É uma pergunta retórica.
-- Então eu não preciso responder.
-- É um tipo diferente de pergunta retórica. Quantos anos você tem?
-- Quarenta e dois.
-- É verdade. Quarenta e dois. Você acha muito?
-- Você acha?
-- Isso é uma pergunta retórica?

Fabrício quando agitava as mãos sobre o joelho era porque qualquer coisa o irritava. Alisava o tecido da calça jeans. Que isso fosse possível.

-- Meu pai se matou com trinta e cinco anos.
-- O que o seu pai tem a ver com isso, Marcela?
-- Trinta e cinco. Você se lembra de quando tinha trinta e cinco anos?
-- Sim.
-- Você pensou em se matar?
-- Não.
-- Não?
-- Não, eu não pensei em me matar. Nunca pensei em me matar.
-- Nunca?

Ele negou com a cabeça, fechando os olhos por um momento. Enfático. Não. Abriu a boca, e custou a falar:

-- Esse Guto.
-- O que tem ele?

Deteve-se. Girou a cadeira de volta para a mesa e abriu o computador, respirando fundo. Levantei-me. Para sair do escritório. Encontrar algum livro para ler, algum pedaço de papel para rabiscar. Talvez, ainda, ligar para Michel e se encontrar em uma qualquer livraria.

-- Ele te perturba porque é bonito?
-- Acho que sim.
-- E como ele é?
-- Ele tem um sorriso.
-- Todos nós temos um sorriso.
-- Meu pai não tinha.
-- Seu pai.
-- Dizem. Eu não me lembro.
-- Você vai sair?
-- Acho que sim. Não quero te atrapalhar.
-- Não está me atrapalhando.

Aproximei-me para lhe dar um beijo na testa. Ele um carinho em meu rosto. Uma impaciência. Frustração. Que não o que deveria me alcançar. Depois me afastei.

03/12/2008

0.1

-- Vou pedir a Karen em casamento.

Namorei com João na época em que entramos na faculdade. Durou seis meses. Quando voltamos a nos encontrar ele trabalhava no instituto. Gerente de. Não me entendo com os títulos. Mas era uma criança de calça e camisa social, a gravata por baixo do jaleco branco.

Crianças.

Eu.

Mas então olhei o céu, que escurecia. Fosse prenúncio de uma noite fora de hora.

-- Vai chover.

Ele acompanhou meu olhar, concordou com a cabeça. Buscou nos bolsos da calça o maço de cigarros e o isqueiro. Inclinei o corpo para trás para mexer na grama do canteiro onde estávamos sentados.

Na verdade nos conhecíamos desde o tempo do colégio. Era irmão da filha de Michel. Meio-irmão. Mas isso por outras voltas. A mãe de João e Michel, depois que o pai de João saiu de casa, entre os papéis do divórcio.

Nós, desenganados; escapando das aulas de educação física para discutir a matemática do universo. Há de se passar por momentos como esse, como todo adolescente que se preze. Ou fugir das aulas de matemática para jogar futebol. Que se entendam todos com seus pares.

João achava que queria ser músico. Depois quis ser engenheiro. Nunca se formou. Vinte e sete anos, terminando enfim uma faculdade de. Contabilidade? Ciências de. Números.

Mas eu, química em laboratório farmacêutico desenvolvendo e aprimorando medicamentos contra a obesidade. O trabalho sempre todo uma abstração, um anotar os dados. Porque é sempre preciso matar os ratinhos brancos e gordinhos e adoráveis, e eles morrem obesos ou por qualquer outro problema nada natural. Sempre morrem.

Não é o que se contar à sogra, às tias alheias. Mas é sempre ler um livro quando já se sabe que o protagonista morre no final.

Há de se compadecer de ratinhos brancos e obesos.

-- Mas ela?
-- O quê?
-- A Karen. Sabe?
-- Que vou pedir ela em casamento?
-- Sim. Ela sabe?
-- Não sabe.
-- Imagina?
-- Sempre imaginam.

Olhei outra vez o céu, antes de voltar para a grama do canteiro. João acendeu o cigarro, soltou a fumaça para o outro lado e sacudiu os ombros.

-- Você não imagina?
-- O quê? O Fabrício?
-- É.
-- Não.
-- Por que não?
-- Já é como se estivéssemos casados.
-- Mas não estão.
-- Não.
-- Em espírito?
-- Como assim?
-- Casados.
-- Os espíritos casados?
-- Não sei. Vocês moram juntos já vai fazer dois anos.
-- Um ano e meio.
-- E ele veio pra São Paulo.
-- Sim.

Fabrício, jamais. Se soube buscar qualquer coragem para sair de Porto Alegre para morar comigo, não imagino que tivesse lhe restado ainda qualquer outra. Deixou esposa e filha. A filha de catorze anos. Idade da Luciana, filha de Michel.